O amor vem antes mas fica, exatamente, no mesmo nível de importância da Exigência, da Disciplina.
Codependência: "Ninguém pode nos ferir sem o nosso consentimento"
Atualmente várias abordagens de tratamento para dependênciade cocaína e crack no Brasil vêm sendo discutidas,porém existem muitas controvérsias sobre qual abordagemdemonstra maior efetividade na literatura científica. Há umconsenso de que a dependência de crack exige um tratamentodifícil e complexo, pois é uma doença crônica e graveque deverá ser acompanhada por longo tempo (28).Primeiramente, é de fundamental importância ter claroque não existe um único tratamento que abarque as característicasmultidimensionais da adição (29). A equipe técnicatreinada para atender esses usuários precisa ser multiprofissionale interdisciplinar. Em virtude da gênese multifatorialda dependência química, o dependente precisa seratendido nas diversas áreas afetadas, tais como: social, familiar,física, mental, questões legais, qualidade de vida eenfocando especialmente as estratégias de prevenção de recaída.O tratamento dessas questões é tão importante quantoas estratégias dirigidas ao consumo de drogas.Devido à alta prevalência de usuários de crack em algunspaíses, investigadores vêm desenvolvendo estudos com o objetivo de comprovar se as técnicas mais eficazes no tratamentode outras dependências químicas podem ser utilizadasno tratamento desse problema (30).Quanto ao manejo psicoterapêutico para usuários decrack e cocaína, intervenções psicossociais, como a TerapiaCognitivo-Comportamental (TCC), enfocando a recuperaçãode habilidades sociais e visando à abstinência, têmdemonstrado bons resultados em pacientes que não apresentamgraves problemas em decorrência do uso dessas substâncias(31).Cabe considerar aqui que modelos preventivos de abordagemdo tipo Redução de Danos parecem apresentar poucoresultado nessa população de usuários, em função dagravidade da dependência que essa droga causa. Medidascomo cachimbos descartáveis ou outras estratégias que sebaseiam predominantemente na manutenção de uso seguro- bastante aceitáveis em outras modalidades de uso desubstância - não apresentam eficácia comprovada em usuáriosde crack (28).Ao definir o modelo técnico de abordagem terapêutica, éessencial ter cuidado que ele seja adequado para a idade, gênero,etnia e cultura do paciente, devendo estar estruturado demodo a que, se for necessário, possa ser reformulado conformeas necessidades mutantes dos sujeitos (32).Em resposta à crescente necessidade de tratamento paraessa população, observa-se que tratamentos por longos períodos(seis meses a um ano) têm evidenciado resultadosmais promissores. Esse tipo de intervenção deverá oferecerinicialmente internação em ambientes protegidos, comohospitais e instituições especializadas em adições (28). Concomitantemente,as intervenções motivacionais (motivationalinterviewing - MI) e entrevista motivacional (motivacionalenhancement therapy - MET) procuram auxiliar opaciente a superar a ambivalência inicial para o tratamento,através de uma relação centrada no paciente, com suportetécnico direcionado à mudança do comportamento adicto.Resultados interessantes estão sendo comprovados atravésdo uso da técnica chamada de gerenciamento de contingências(contingency managment e community reinforcementapproach - CRA - plus vouchers) desenvolvida nos EstadosUnidos para dependentes químicos. Essa técnica baseia-se no pressuposto de que o uso de substâncias ilícitas esua manutenção são mantidos por fatores ambientais e queesse comportamento pode ser modificado, alterando as consequênciasdessa aprendizagem.Uma metanálise comparou 47 estudos publicados noperíodo de 1970 a 2002 baseados no modelo de contingencymanagment (CM). Os achados indicaram que essa técnicaé capaz de estabelecer e manter a abstinência, mesmo emdependências químicas graves, possibilitando também aos pacienteso desenvolvimento de habilidades psicossociais, e assimprolongando o período de abstinência (33).Recentemente, uma revisão de 37 estudos randomizadosdemonstrou que os resultados mais relevantes com dependentesde psicoestimulantes eram provenientes do usode diferentes técnicas de intervenção comportamental.
O consumo de substâncias psicoativas é atualmente um dosmais preocupantes problemas de saúde pública no mundo.O advento do crack trouxe preocupações maiores por suasconsequências impactantes para o indivíduo e toda a sociedade.Embora com baixa prevalência na população brasileira,por onde passa deixa um rastro de doenças, violência e criminalidade,justo por atingir, em maior escala, uma parcelacom baixa escolaridade, famílias desestruturadas e baixopoder aquisitivo. São em sua maioria jovens que não reconhecemsua dependência e têm grande dificuldade paraaderir ao tratamento. Por sua vez, o poder público com parcosrecursos e políticas públicas quase inexistentes, não temcondições de abarcar a demanda, e os profissionais da saúdeveem-se em uma "saia justa". Mesmo assim há o quefazer e uma boa porcentagem dos usuários de crack recuperam-se com o tratamento. É importante que os generalistasestejam atentos e investiguem o uso de drogas por seus pacientes,que inicia com o álcool e o tabaco, para condutas eencaminhamentos apropriados, podendo, dessa forma, preveniro poliúso e a sequência ao consumo de crack. A prevençãosempre será a melhor estratégia e no caso do crackela consiste em prevenir o HIV, DSTs, quadros clínicos,comorbidades psiquiátricas, nascimentos dos crackbabies -prematuridade, bebês de baixo peso -, violência e criminalidade.O tratamento dos usuários é, em geral, longo e comabordagem multidisciplinar em que sejam trabalhados osaspectos clínicos, familiares, sociais e legais. Inicia com ainternação em leito psiquiátrico, passando ao ambulatórioou comunidades terapêuticas. Como outras doenças crônicas,os consumidores de crack necessitam de longo acompanhamento.Estudos e pesquisas são necessários para ummaior conhecimento acerca do crack, mas os autores esperamter contribuído com informações que possam orientarcondutas e direcionar estratégias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS1. Ribeiro M, dunn J, Sesso R, Dias AC, Laranjeira R. Causes of deathamong crack cocaine users. Rev Bras Psiquiatr 2006; 28(3):196-202.2. Ribeiro M, Dunn J, Laranjeira R, Sesso R. High mortality amongyoung crack cocaine users in Brazil: a 5-year follw-up study. Addiction2004; 99:1133-1135.3. Oliveira LG, Nappo SA. Caracterização da cultura de crack na cidadede São Paulo: padrão de uso controlado. Rev Saúde Pública 2008;42(4):64-671.4. Dualibi LB, Ribeiro M, Laranjeira R. Profile of cocaine and crackusers in Brazil. Cad. Saúde Pública 2008; 24[ suppl.4]:545-57.5. Goldstein RA, DesLauriers C, Burda AM. Cocaine: History, SocialImplications, and Toxicity - A Review. Dis Mon 2009; 55:6-38.6. 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